quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Trecho de um livro que relata as aventuras de Charles Darwin


Aqui vai um trecho de "Aventuras e Descobertas de Charles Darwin a Bordo do Beagle", de Richard Keynes, publicado no Brasil pela editora Jorge Zahar. O autor aproveita documentos de Darwin e do ilustrador Conrad Martens para reconstruir a viagem de Darwin pela América do Sul.


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A cavalo de Santiago a Mendoza e de volta pelo passo Uspallata

Depois de ficar uma noite ou duas com Richard Corfield no Almendral, em Valparaíso, Charles tomou um birloche (diligência) para Santiago, onde Alexander Caldcleugh, negociante, dono de minas, colecionador de plantas e membro da Royal Society, ofereceu-se para ajudá-lo na preparação de uma longa viagem para examinar a geologia das cordilheiras. Nessa expedição Charles levou seu antigo companheiro Mariano Gonzáles e um tropeiro com sua madriña e dez mulas, das quais seis para montar e quatro para carregar a comida e a bagagem. A madriña era uma égua que portava um sino ao pescoço e tinha as funções de manter unida a pequena tropa de mulas e agir de maneira mais efetiva como guia das outras.


Deixando Santiago na manhã de 18 de março, eles cavalgaram pelas planícies secas em volta da cidade até chegarem à boca do estreito vale do rio Maipu, cercado pelas altas montanhas das primeiras cordilheiras. Ali as casas eram cercadas por vinhedos e árvores frutíferas pesadamente carregadas de maçãs maduras, nectarinas e pêssegos. De noite, as caixas que Charles estava mandando para a Inglaterra foram examinadas na Alfândega, onde os funcionários mostraram-se extremamente educados, em parte, sem dúvida, porque Charles tinha um importante passaporte emitido pelo presidente do Chile. Mas ele ficou também muito impressionado com a educação de todos os chilenos, que comparou favoravelmente à dos funcionários ingleses. Nos distritos habitados o grupo dormia em casas onde alugavam pasto para os animais, compravam um pouco de lenha, organizavam panelas e utensílios em algum canto e comiam a ceia sob um céu limpo, sem maiores problema.


Na manhã seguinte chegaram à última e mais alta casa do vale. Ali o Maipu descia furiosamente por uma planície estreita coberta de cascalho, com montanhas de 900 a 1.500 metros, de encostas íngremes, cor de púrpura e impressionantemente estratificadas. O grupo cruzou vários rebanhos de gado trazidos dos vales mais altos, sinal do inverno que se aproximava, e apressou o passo "mais do que era conveniente para a geologia". Passaram a noite seguinte onde o Maipu dividia-se nos rios do Vale do Yeso e do Vulcão, ao pé de uma montanha de três mil metros coroada pelas minas de San Pedro de Nolasko, onde ainda havia algumas manchas de neve no pico.


No alto do vale, a vegetação escasseava, embora ainda existissem algumas plantas alpinas muito bonitas; não se via quase nenhum pássaro ou inseto. Tudo estava cheio de imensas quantidades de cascalho brilhante e colorido pelo qual os rios escavavam canais. Charles reconheceu, pelo que já vira da geologia, que esse cascalho e outros depósitos aluviais haviam sido originários do oceano, em uma era anterior, quando a terra estava imersa na água. Naquela noite chegaram ao vale do Yeso, que outrora deveria ter sido um grande lago, mas que agora continha uma camada de quase 600 metros de gipsita (sulfato de cálcio) branca e em diversas partes muito pura.


Na manhã seguinte, a até então boa estrada degenerou em uma trilha íngreme e ziguezagueante do lado oeste das duas principais cadeias que formavam a cordilheira naquela latitude. Tratava-se da cadeia Peuquenes, separando as águas que desciam pelo oeste até o Pacífico e pelo leste até o Atlântico, e que se podia cruzar por um passo a quatro mil metros acima do nível do mar. Naquela altitude as mulas tinham alguma dificuldade (conhecida como puña pelos chilenos) em respirar o ar rarefeito, e a cada 50 metros deviam descansar um pouco. Charles não levou a dificuldade a sério, mas foi obrigado a admitir que gostou quando a excitação de encontrar impressões abundantes de conchas fósseis na parte mais alta da cadeia fez com que esquecesse o desconforto da puña.
Escreveu em seu caderno:


Quando chegamos à crista e olhamos para trás, uma vista gloriosa se apresentava. A atmosfera, resplandecente de tão clara, o céu de um imenso azul, os vales profundos, as formas tão abruptas, os montes de ruínas empilhadas durante o lapso das eras, as rochas brilhantemente coloridas contrastando com as quietas montanhas de neve, tudo isso produzia uma cena que eu jamais poderia ter imaginado. Nem planta nem pássaro, exceto uns poucos condores circulando em torno dos píncaros mais altos, distraía a atenção das massas inanimadas. ... Fiquei feliz por estar ali, era como olhar uma trovoada, ou ouvir a orquestra e coro do Messias.

Desceram pelo lado mais afastado da cadeia e pernoitaram a uma altitude de não menos de três mil metros. Durante a noite o céu carregou-se de nuvens de tal forma que Charles achou ameaçadora, mas ficou aliviado quando o tropeiro garantiu-lhe que, sem trovões e relâmpagos, não havia sério risco de tempestades de neve. Alexander Caldcleugh, ao cruzar o passo na mesma época do ano, havia sido pego por uma tempestade destas e ficara preso por algum tempo em uma desconfortável caverna, único refúgio disponível.


De manhã, como as batatas ainda estivessem duras após ferver por toda a noite naquela pressão e temperatura reduzidas, Charles achou graça ao ouvir os companheiros concluírem que "a maldita panela (que era nova) havia decidido não cozinhar as batatas". Depois do café da manhã sem batatas, cruzaram a área intermediária, em que o gado era levado a pastar no meio do verão, mas de onde - como os guanacos haviam feito por vontade própria - fora removido, por medo das prematuras tempestades de neve. A partir daí eram longas escaladas por áreas de neve permanente, colinas áridas e pontas de granito vermelho de ambos os lados; chegaram ao passo Portillo, a uma altitude de 4.300 metros. Após cruzarem o passo, desceram até o nível da primeira vegetação e pernoitaram no abrigo confortável de algumas pedras grandes. Dois dias e outra cadeia de montanhas depois - e dois mil metros abaixo -, Charles teve a primeira vista panorâmica dos pampas estendendo-se para leste, mas ficou bastante desapontado ao descobrir que de maneira alguma o cenário era superior ao da crista da Sierra de la Ventana, que ele avistara dois anos antes no lado da Argentina.


Charles ficou interessado ao descobrir que as estruturas geológicas das duas principais cadeias que havia atravessado diferiam em alguns aspectos significativos. A cadeia Peuquenes e as cadeias menores que a flanqueavam a oeste eram compostas de uma vasta pilha de muitas centenas de metros de espessura de pórfiros que haviam fluído como lavas submarinas, misturados com fragmentos angulares e redondos das mesmas pedras, lançadas das crateras submarinas. Os centros dessas massas haviam sido cobertos, em uma espessura considerável, por material sedimentar, compreendendo arenito vermelho, pórfiros fundidos pelo calor e pela pressão e uma mistura de argila e ardósia, passando por imensas camadas de gipsita formada pela evaporação da água do mar. Nas camadas superiores, não raro encontravam-se conchas de fósseis que outrora haviam se arrastado pelo fundo do mar; desse modo, a terra se elevara 4.200 metros desde o período secundário, há cerca de 300 milhões de anos. E mais: as conchas em questão haviam se acostumado a viver em águas muito profundas, de modo que a montanha devia então ter baixado vários milhares de metros para que os estratos submarinos necessários se acumulassem sobre as conchas; a isso seguiu-se uma nova elevação final.


A formação da cadeia de Portillo era muito diferente. Consistia principalmente de grandes pináculos nus de um granito de potassa vermelho, coberto no flanco oeste por um arenito que havia sido aquecido o suficiente para se transformar em quartzo. Por cima do quartzo havia um conglomerado constituído por uma mistura de seixos e conchas da cadeia das Peuquenes, com o granito vermelho de potassa da cadeia de Portillo. Era evidente que ambas as cadeias haviam se elevado quando o conglomerado estava se formando, mas como ele havia sido expulso a um ângulo de 45o pelo granito vermelho de potassa, o grosso da injeção ocorrera após a acumulação do conglomerado e muito depois da elevação da cadeia Peuquenes. A cadeia mais alta dessa parte da cordilheira, portanto, era na verdade mais jovem do que a adeia mais baixa da Peuquenes; e as águas, fluindo para leste, continuaram a abrir caminho por ali durante os últimos estágios de elevação. Com esse tipo de argumento Charles concluiu que, na maior parte da cordilheira, se não em toda ela, cada uma das linhas paralelas havia sido formada por sublevações e injeções em épocas diferentes. "A cada dia", escreveu ele, "o geólogo é forçado a ver que nada, nem mesmo o vento que sopra, é tão instável quanto o nível da crosta desta terra."


Embora durante a viagem - que em termos geológicos foi a mais frutífera de todas as que fez na América do Sul - sua atenção estivesse voltada sobretudo para as pedras que encontrava, a biologia jamais foi inteiramente negligenciada. Nos montes de neve, em ambas as cadeias, ele observou que as pegadas das mulas estavam manchadas de vermelho claro, como se os cascos estivessem sangrando um pouco. Não era essa a explicação, como também não havia possibilidade de que se tratasse de uma poeira vermelha de pórfiro soprada das montanhas. Charles esfregou a neve em um papel e, usando lentes, verificou que a cor estava contida em grupos de pequenas bolas com 0,0025 centímetros de diâmetro que pareciam ser "os ovos de pequenos moluscos". Mandou amostras para Henslow, e mais tarde "a neve vermelha" foi identificada como o produto de uma alga familiar aos exploradores do Ártico e que Charles chamou de Protococcus nivalis.


Após descer o passo Portillo, fez um comentário muito significativo sobre o papel das cordilheiras na distribuição geográfica das espécies, assunto sobre o qual vinha pensando havia algum tempo (ver p.231). Essa importância fora destacada pelo geólogo Charles Lyell - que mais tarde se tornaria um dos melhores amigos de Charles - no segundo dos três volumes que escreveu sobre princípios de geologia - e que Charles tinha no Beagle.2 No Journal of Researches ele escreveu Charles:

Fiquei muito impressionado com a marcante diferença entre a vegetação desses vales ocidentais e os do lado chileno: no entanto, o clima, assim como o tipo de solo, é quase o mesmo, e a diferença de longitude é insignificante. A mesma observação é verdadeira para os quadrúpedes e, em grau menor, para pássaros e insetos. Posso dar como exemplo os ratos, de que obtive 13 espécies nas margens do Atlântico e cinco nas do Pacífico, nenhuma delas sendo idêntica. Devemos excluir todas as espécies que habitualmente ou ocasionalmente freqüentam montanhas elevadas; e certos pássaros, com âmbito de ação tão ao sul quanto o estreito de Magalhães. Este fato está em perfeito acordo com a história geológica dos Andes; pois essas montanhas existiam como uma grande barreira desde que os animais atuais apareceram; e portanto, a menos que suponhamos que as mesmas espécies foram criadas em dois lugares diferentes, não devemos esperar semelhança maior entre os seres orgânicos de lados opostos dos Andes do que de margens opostas do oceano. Em ambos os casos devemos deixar de fora os tipos que foram capazes de cruzar a barreira, seja de pedra sólida, seja de água salgada.

Nota. Esta é meramente uma ilustração das admiráveis leis, primeiramente estabelecidas por Lyell, a respeito da distribuição geográfica de animais sob a influência de mudanças geológicas. Todo o raciocínio, é claro, está baseado na suposição da imutabilidade das espécies; caso contrário, a diferença nas espécies das duas regiões pode ser considerada como superinduzida durante certo período de tempo.

Um grande número de plantas e animais é absolutamente o mesmo, ou muito próximo ao da Patagônia. Temos aqui cotias, chinchilas, três espécies de tatu, emas, certos tipos de perdizes e outros pássaros, nenhum dos quais se vê no Chile, mas que são animais característicos das planícies desertas da Patagônia. Da mesma forma temos muitos dos mesmos (aos olhos de quem não seja botânico) arbustos agrestes e raquíticos, capins secos e plantas anãs. Até mesmo os besouros pretos que se arrastam lentamente são muito semelhantes, e alguns, acredito eu, após um exame rigoroso, absolutamente idênticos. Para mim sempre foi um motivo de pena termos sido obrigados a desistir da subida do rio Santa Cruz antes de chegar às montanhas: sempre tive a esperança de encontrar alguma grande mudança nos aspectos da região; mas agora tenho a certeza de que seria o mesmo que seguir as planícies da Patagônia, só que em uma subida montanhosa.


A nota explicando o argumento de que as espécies eram imutáveis foi, é claro, acrescentada pouco depois de Charles ter iniciado seu primeiro e estritamente privado caderno sobre a transmutação das espécies, em julho de 1837; mas em 1845 ele ainda tinha o cuidado de não dar qualquer indicação da mudança drástica de seus pontos de vista, que só seriam revelados com a publicação de A origem das espécies, em 1859.

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